terça-feira, 20 de agosto de 2013

Quem incitou Davi a fazer um censo, O Senhor ou Satanás?

Por Nedson Mateus M. Fonseca

II Sm 24 e 1Cr 21 falam de um mesmo acontecimento, o censo pedido por Davi. No entanto, algo que é digno de que olhemos com mais cautela é o fato de que em II Sm 24 diz que o Senhor incitou Davi a fazer o censo, já em 1Cr 21 diz que satanás incitou ou levantou Davi a fazer o censo. Então, quem de fato incitara a Davi? Deus não foi soberano? A bíblia está se contradizendo?
De fato, em 2Sm 24.1 diz: “Tornou a ira do Senhor a acender-se contra os israelitas, e ele incitou a Davi contra eles, dizendo: Vai, levanta o censo de Israel e de Judá.”. E em 1Cr 21 diz: “Então, Satanás se levantou contra Israel e incitou Davi a levantar o censo de Israel.”.
Então, quem foi mesmo que incitou Davi? Há uma contradição?
Esses textos enquadram-se dentro dos textos que mais suscitam questões e dúvidas. Por isso, devem ser analisados corretamente.
A palavra usada para dizer que Davi foi incitado, tanto por satanás (Satan, o adversário), quanto pelo Senhor, é a mesma nas duas passagens no idioma hebraico, o termo é סוּת (sût), que significa seduzir, fascinar, instigar, atacar.  Como diz o Dicionário Internacional de Teologia do AT (1998, p. 1035), “Na maioria das vezes o verbo tem uma conotação negativa. Davi, que desejava a autoglorificação, foi facilmente seduzido a enganar o povo (1Cr 21.1).”.
Sem dúvida nenhuma, os textos estão falando do mesmo relato. Mas como explicar? É importante observar que o livro de Samuel foi escrito antes do exílio e o livro de Crônicas depois do exílio. O livro de Crônicas por ter sido escrito depois, foi escrito com o propósito de fazer com que os judeus que voltaram do exílio não cometessem os mesmo erros comentidos por aqueles que foram, de maneira que ao rememorar os fatos, o cronista faz o relato interpretando sobre uma perspectiva correta (e.g. 1Cr 10.13-14 e 1Sm 28.15).
Assim, analisando dessa forma, 1Samuel diz que o Senhor se irou contra os israelitas e incitou Davi. Já o cronista, não nega que foi o Senhor que se irou e incitou Davi, porém, ele identifica como se deu essa incitação. Na sua Soberania, Deus permitiu que Satanás incitasse a Davi e assim cumprisse seus propósitos.
Alguém poderia objetar, porque 1Sm não trata sobre esse prisma? A resposta é que cada um foi influenciado por sua época. Antes do exílio, os israelitas tinham uma visão de mundo muito monista, ou seja, tudo vinha Deus, Deus puniu os maus e abençoava os bons. Porém, como o contato com os babilônicos e outros povos, os judeus aderiram a concepção dualística (não como os outros povos, mas uma forma adaptada), ou seja, duas forças estão atuando no Universo. Só que os judeus tinham compreensão de que a força Predominante governava tudo, e a força secundária andava dentro dos parâmetros da força dominante. Assim, o texto de 2Sm foi escrito numa perspectiva monista (que não estava errada, pois tudo vem de Deus), e o texto de 1Cr foi escrito de uma perspectiva dualística (que como os judeus criam, não estavam erradas, pois poderes malignos atuam nesse mundo como mostra o NT, porém, não fogem ao controle soberano do Senhor). Dessa forma, o cronista está explicando que o Senhor se irou contra Israel e queria puni-los, e a maneira de puni-los foi permitir a incitação por parte do Adversário, que num segundo foi o incitador, mas que quem estava em primeiro plano governando tudo era o Senhor.
Acerca desse episódio, Wayne Grudem (2010, p.256) faz uma ótima exposição ao dizer: “Deus, a fim de cumprir os seus desígnios, agiu por intermédio de Satanás para incitar Davi ao pecado, mas as Escrituras responsabilizam Davi pelo pecado”. Assim, Deus é soberano, não é pecador e os pecadores continuam culpados.
Alguns podem objetar que, então, Deus seria mal ao levar Davi a pecar?
O mesmo Grudem (2010, p. 254) dá uma declaração que usaremos para responder tal pergunta, ele diz:
As Escrituras em momento nenhum, retratam Deus fazendo diretamente algo mal; retratam, sim, Deus causando atos maus por meio de ações voluntárias das criaturas morais. Além disso, as Escrituras jamais culpam a Deus pelo mal, nem dão a entender que Deus encontra prazer no mal, tampouco desculpam aos homens o mal que cometem. Seja como for que compreendamos a relação de Deus com o mal, jamais devemos chegar ao ponto de não nos julgar responsáveis pelo mal que fazemos, ou de pensar que Deus encontra prazer no mal, ou é culpado dele. Tal conclusão contraria nitidamente as Escrituras.
Então, essas duas passagens mostram o soberano governo divino, onde nada foge ao seu controle, e até satanás coopera para o cumprimento dos seus desígnios. Uma frase que é atribuída a Martinho Lutero diz: “O diabo é o diabo de Deus”.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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